Gratidão deriva do termo pensar.

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Gratidão deriva do termo pensar.

Postado em 19/01/2017

Amados irmãos e irmãs, hoje o ponto referencial da nossa meditação é o décimo mandamento da lei de Deus, encerrando o nosso dezenário: Não cobiçar as coisas alheias! No livro do Deuteronômio nós encontramos este mandamento escrito assim: “Não cobiçarás a casa do seu próximo, nem seu campo, nem seu escravo, sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença”. Ou seja, o décimo mandamento se refere à intenção do nosso coração e resume, juntamente com o nono mandamento que nós meditamos ontem, todos os mandamentos da lei de Deus.
Caros irmãos e irmãs é muito natural que o nosso apetite deseje coisas que nós não temos, como, por exemplo, quando nós estamos com fome, aspiramos comer. Quando sentimos frio, queremos nos aquecer e assim por diante. Em si esses desejos são todos bons, mas muitas vezes esses desejos ou esses apetites não respeitam a medida certa e nos levam, a cobiçar injustamente aquilo que não o pertence. É o desejo imoderado! Por isso, que o décimo mandamento da lei de Deus proíbe a avidez. E o que é avidez? É o desejo ardente, intenso por algo ou por alguém. Ou ainda, de modo mais simples, avidez é o desejo desequilibrado. Daí a necessidade de uma referência, de uma orientação para que este desejo possa manter-se em seu lugar certo.
Quando a lei de Deus nos diz: não cobiçarás, esta lei está nos ordenando, em outros termos, que afastemos nossos desejos de tudo aquilo que não nos pertence. Ou seja, que nos conformemos com aquilo que nós temos e não cobice aquilo que não nos pertence. Algo que toca profundamente o nosso coração e sabemos que isso existe, basta adentrarmos na nossa interioridade que nós vamos encontrar esta tendência, esta má inclinação, que é a inveja. O décimo mandamento quer banir a inveja do coração humano. A inveja é como se fosse uma chaga em nosso coração. A inveja pode levar às piores ações. Se diz, inclusive, que foi pela inveja do demônio que a morte entrou no mundo. Vejam só quanto destrutivo é este sentimento!
Por isso, a inveja é um sentimento destrutivo e acaba sendo também um vício capital. Designa tristeza sentida diante do bem do outro e o desejo imoderado de apropriação. Pode até se tornar um pecado mortal quando deseja um grave mal ao próximo, tudo isso causado pela inveja. Quando nós desejamos algo do outro e desejamos de repente, também, que ele morra pra nós usufruirmos daquilo que ele tem. Por isso, Santo Agostinho via na inveja o pecado diabólico por excelência que estava na raiz de muitos males. Da inveja, dizia Santo Agostinho, nasce então o ódio, a maledicência, a calúnia, a alegria causada pela desgraça do outro e o desprazer quando o outro prospera. Vejam só o que a inveja é capaz de fazer. Fazer com que sintamos alegria da desgraça dos outros e sentir tristeza e raiva quando percebemos que o outro está prosperando, está se dando bem na vida.
Caros irmãos e irmãs, vivemos hoje na nossa sociedade uma inveja chamada “inveja social”, que cresce cada vez mais sem que nós percebamos. Inveja-se, por exemplo, o outro que tenha o seu trabalho, a sua mulher, os seus filhos, o seu sucesso, o seu carro, a sua casa e assim por diante. Quem inveja alguém, está sempre se comparando ao outro e sempre se auto definindo a partir do outro. E quando faz isto, ele acaba perdendo o contato consigo mesmo. Desse modo, a inveja prejudica a pessoa tanto espiritualmente quanto corporalmente. Ela toma toda a alegria de viver e acaba fazendo com que a pessoa até possa se sentir escravo ou escrava deste sentimento. E quanto esta tendência da inveja que todos nós, de repente, em maior ou menor intensidade podemos ter e, por isso, contra esta tendência precisamos recuperar a modéstia, a qual é a ação de moderar alguns comportamentos humanos, como a vaidade e a luxúria. Ou ainda recuperar a moderação, o equilíbrio dos desejos, dos próprios apetites. Não copiar, por exemplo, os padrões de vida dos outros, mas encontrar seus próprios padrões de vida e ser feliz do seu modo, do seu estilo. Não se enfeitar com artigos de marca, porque muitos, mesmo que não tenha dinheiro, fazem de tudo para adquirir algo só pra entrar na moda, por exemplo. Não entrar na onda de consumo, mas se concentrar também naquilo que é essencial.
Não é vergonhoso, por exemplo, não podermos viajar longamente ou para lugares distantes. Não possuir o carro do ano, não possuir, de repente, um celular do último lançamento e assim por diante. Aquele que cobiça os bens do próximo tem em si algum sentimento de pouco valor de si próprio. Se projeta tanto no outro que acaba se perdendo a si mesmo. O seu valor está nas coisas que pode ter e não naquilo que é enquanto pessoa. Por isso, então, Jesus responde ao décimo mandamento com esta exortação, para descobrirmos a riqueza que existe em nós mesmos, a riqueza verdadeira está em nós. A pérola preciosa é o eu verdadeiro que se encontra dentro de mim mesmo, porque a cobiça nos rouba paz. Quem encontra o tesouro em si é verdadeiramente livre e acaba também encontrando a paz consigo e com os outros.
O sentido do décimo mandamento é não somente o sentido da proteção da propriedade, mas uma atitude de gratidão. E é bom que a gente recupere também esta atitude de gratidão por tudo aquilo que temos. Se reconhecermos agradecidos pelo que Deus nos ofereceu, estaremos livres do olhar cobiçoso para a propriedade do outro, pois a cobiça é fonte de insatisfação, de insaciabilidade e também de ganância. Por isso, é salutar contra isso exatamente a gratidão pelo que Deus nos deu. E é verdade também que a pessoa agradecida é uma pessoa satisfeita, alegre, contente. Ela até se torna agradável para a convivência, porque, é claro, como é bom a gente conviver com pessoas satisfeitas, felizes, não com pessoas insatisfeitas, que vivem reclamando de tudo. Pois com pessoas ingratas nós não conseguimos conviver bem porque estão sempre e continuamente insatisfeitas. Não se contentam com nada. E, pelo contrário, o agradecido se contenta com aquilo que ele tem e é feliz até com o pouco que ele tem.
Gratidão deriva do termo pensar. A pessoa grata pensa, o ingrato não pensa, porque se pensasse ele seria agradecido e encontraria motivos suficientes também para a gratidão. Por isso então que esta palavra deriva do termo pensar. A gratidão nos possibilita alegrarmos com o outro em suas conquistas, não ficar com raiva. Se a gente perceber que alguém está crescendo, prosperando, tudo dando bem, devemos louvar e agradecer a Deus por isso. A pessoa grata não tem necessidade de depreciar o outro. Não perdemos o nosso valor se reconhecermos no outro, agradecermos o valor do outro com um elogio sincero, por exemplo. A gratidão nos vincula ao outro, nós não somos o seu concorrente e nem ele também é o nosso.
É verdade, caros irmãos e irmãs, que nós não temos tudo em nós, que a gente sempre vai aspirar alguma coisa do outro, mas que seja de maneira justa e não de forma injusta. É bonito percebermos que nós não somos perfeitos, completos e que os outros são capazes de nos completar. É bonito podermos admirar algo nos outros que falta em nós. Desse modo, nós não vamos invejar, mas nós vamos nos alegrar na riqueza que encontramos em outras pessoas. Tem gente que, por exemplo, sabe cozinhar perfeitamente e tem gente que já não sabe cozinhar nada. Coitado do Frei Felipe! Mas é assim mesmo, nem todo mundo é perfeito, nem todo mundo sabe fazer tudo. Imagina se todo mundo soubesse só cozinhar? Não! É bonito percebermos que falta algo em nós e então nós não iremos invejar os outros, mas seremos um complemento do outro.
Caros irmãos e irmãs, é necessário trabalhar essas más inclinações que existem dentro de nós, vencermos o mal com o bem, vencermos os vícios com o exercício das virtudes. E é natural que sintamos isso dentro de nós como que uma contradição, um conflito dentro de nós. Primeiro temos uma lei da razão, a lei justa, a lei da medida certa que é a lei dada por Deus. Mas dentro de nós também existe uma outra lei, a lei da contradição. Por isso que São Paulo dizia: “Infeliz de mim! Quem me libertará deste corpo de morrer? Porque eu desejo fazer tantas coisas boas e acabo fazendo tudo de ruim, tudo de errado”. No entanto, caros irmãos e irmãs, é bom que nós nos apercebamos que todos nós temos essas más inclinações dentro de nós, mas nós não somos abandonados a nossa miséria, aos nossos pecados e aos nossos vícios. Não! Deus vem em nosso socorro e nos abre o caminho de restauração. Podemos sim produzir e fazer o bem, podemos ser conduzidos pelo Espírito e fazermos também segundo a lei do Espírito, seguir os desejos do Espírito, cultivando assim a benevolência.
O mal se vence com o bem e os vícios se vencem com as virtudes. A cobiça ou a inveja provém, muitas vezes, de orgulho. E como fazemos para vencê-lo? Cultivando a humildade. Esta é remédio para o orgulho. Portanto, caros irmãos e irmãs, durante esses dez dias, nós meditamos em cada dia um mandamento como uma lembrança, como um aprofundamento, como catequese, como referência para a nossa vida. Os dez mandamentos defendem o modo de vida que seja ao mesmo tempo garantia dos direitos humanos e revelação do rosto amoroso de Deus, libertador, que não quer que nos percamos ou que pequemos, mas que toda vez que a gente caia, ele olha para nós e nos ajuda a nos levantarmos.
Os mandamentos nos revelam a intenção de Deus do seu coração tão bem definida por Jesus que disse: “Eu vim para que todos tenham vida e tenham em abundância”. Desse modo, Jesus resumiu tudo ao dizer que a lei quer levar os seres humanos à plenitude do amor a Deus e também do amor ao próximo. Nisso, então, se resume toda a lei, todos os preceitos, é Jesus quem faz isso, e o faz pelos mandamentos fazendo com que nós nos despertemos para vivenciarmos, experimentarmos concretamente na nossa vida o amor a Deus e ao próximo, porque não existe amor a Deus sem amor ao próximo. E é exatamente por isso que nós colocamos como tema do nosso dezenário: A plenitude da lei é o amor! Que é o ponto de chegada, é para onde Deus quer nos conduzir refletindo sobre os mandamentos. É para lá que Deus quer nos levar, para a sua plenitude, a plenitude do seu amor.
E como conclusão, meus amados irmãos e irmãs, não posso deixar de mencionar algo fundamental para que possamos vivenciar a vontade de Deus manifestada nos mandamentos que é algo muito importante para nós, a obediência. Não podemos viver os mandamentos ou a vontade de Deus se nós não formos obedientes a Deus, obedientes aos seus mandamentos. Por isso, então, nós invocamos São Sebastião, nosso Padroeiro, para que nos ajude a obedecer mais a Deus do que ao homens. E o lema do nosso novenário é esse: São Sebastião, ajuda-nos a vivenciar a vontade de Deus. Todos juntos: São Sebastião, ajuda-nos a vivenciar a vontade de Deus! Mais uma vez: São Sebastião, ajuda-nos a vivenciar a vontade de Deus!
Seja louvado o Nosso Senhor Jesus Cristo!