Jubileu da Vida Consagrada

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Jubileu da Vida Consagrada

Postado em 01/02/2016

Piadas, gestos teatrais e puxões de orelha durante o discurso improvisado de Francisco a 5 mil religiosos, irmãs e sacerdotes, no Vaticano por causa do Jubileu da Vida Consagrada
1 FEVEREIRO 2016
Ironias (“Existem mosteiros que para responder à falta de vocações recorrem à ” fecundação artificial”), advertências severas (“Obediência, porque a anarquia é filha do diabo”), e alguns puxões de orelha (“Quem fofoca contra o seu irmão ou irmã é um terrorista!”).
Um Francisco em franco diálogo com cerca de 5 mil religiosos, irmãs e sacerdotes, recebidos hoje na Sala Paulo VI por ocasião do Jubileu da Vida Consagrada. Como de costume, o Papa descarta o discurso preparado: “Entreguei ao cardeal o texto porque é um pouco chato lê-lo e prefiro falar convosco do que vem ao coração”, explica. Assim começa um grande discurso improvisado no qual indica os três “pilares da vida consagrada”: profecia, proximidade e esperança. “Há também outros”, diz ele, “mas estes parecem-me importante.”
Profecia, disse o Pontífice, que é equivalente à obediência. Aquela feita “perfeita” por Cristo, que “se humilhou, se fez homem, até à morte de Cruz”. Mas, entre vocês há homens e mulheres que vivem uma obediência forte, uma obediência não militar – aquilo é disciplina, outra coisa… – uma obediência do coração?, pergunta o Santo Padre.
Justamente isso, destaca, é o tipo de profecia pedida aos consagrados “contra a semente da anarquia que o diabo semeia”. A tentação, ou seja, do “o que você faz? Eu faço o que eu gosto”.
Tenha cuidado, adverte Bergoglio, porque “a anarquia da vontade é a filha do diabo, não é filha de Deus”. “O filho de Deus não foi anárquico, não chamou os seus para fazer uma força de resistência contra os seus inimigos”. Ele “obedeceu ao Pai. Somente disse: ‘Pai, por favor, este cálice não, mas que se faça a sua vontade”.
Portanto, deve-se também obedecer “uma coisa que muitas vezes nós não gostamos”, destaca o Papa e, sorrindo, faz o sinal alongando a barba, para indicar o tédio que pode causar certos superiores. (“Muitas vezes, como o meu italiano é muito pobre, tenho que falar com a linguagem dos sinais…”, brinca).
“Profecia – continua o Papa – é dizer às pessoas que há um caminho de felicidade, uma grandeza que nos enche de alegria, que é o caminho perto de Jesus”. A profecia é, portanto, “um dom”, “um carisma” que deve ser pedido ao Espírito Santo, para que “eu saiba dizer aquela palavra naquele momento certo; que eu faça aquilo naquele momento certo; que a minha vida toda seja uma profecia”.
Junto com ela, continua Francisco, faz-se necessário a “proximidade”. Porque ninguém se consagra “para afastar as pessoas e ter todas as comodidades”. Não, não, é preciso “aproximar” as pessoas e “compreender a vida dos cristãos e dos não cristãos”, os seus “sofrimentos”, os seus “problemas” e todas aquelas coisas que somente se compreende que se faz próximo.
“Mas, padre, eu sou uma freira de clausura e o que devo fazer?”. “Pense em Santa Teresa do Menino Jesus – diz o Papa -. Ela é a padroeira das missões! Com o seu coração ardente estava próxima. E as cartas que recebia dos missionários tornavam-na mais próxima das pessoas”.
Tornar-se consagrados não significa, portanto, “subir 1, 2 ou 3 degraus na sociedade”. Claro, existem pais que “com orgulho” se orgulham: “Tenho uma filha freira, um filho frade”. “É verdade, é uma satisfação para os pais ter filhos consagrados”, observa o Pontífice. Mas, para os próprios consagrados isso “não é um status de vida que me faz olhar os demais de um pedestal. Uma vida consagrada deve levar-me à proximidade com as pessoas”. Física e espiritual.
Bergoglio, em seguida começou a dialogar consigo mesmo: “Ah, na minha comunidade a superiora nos autorizou sair e procurar nos bairros pobres…’. ‘Diga-me, na sua comunidade existem irmãs idosas?’. ‘Se sim, há uma enfermeira no terceiro andar…’. ‘E quantas vezes você vai encontra essas freiras que poderiam ser a sua mãe e a sua avó?’. “Mas você sabe, padre, eu estou muito ocupada no trabalho e não tenho tempo…’”.
Não funciona assim: é necessário “proximidade”, começando com os próprios irmãos ou irmãs de comunidade. “E também uma proximidade carinhosa, boa, com amor”, destaca Francisco, que, de forma irônica, acrescenta: “Sei que nas vossas comunidades não existe fofoca. Aí está um mundo que deve distanciar-se dos irmãos e das irmãs: o terrorismo das fofocas. Não à fofoca, ao terrorismo das fofocas! Porque quem fofoca é um terrorista, joga como uma bomba uma palavra contra este, aquele e depois vai embora tranquilo. Quem faz isso destrói a comunidade”.
“Dominar a lingua” não é fácil; São Paulo a chamava de “a virtude humana mais difícil de ter”. Existe, porém, um remédio, sugere o Papa: “Se você está prestes a falar algo contra um irmão ou irmã, de jogar uma bomba, morda a língua (e faça o gesto). Assim. Forte!”.
E se existe alguma “falha” ou algo “a ser corrigido”, que não é “conveniente” ou “incomoda” vá e diga ao interessado. Ou, ainda melhor, expresse-o publicamente durante o Capítolo. Existe, de fato, “a tentação de não dizer as coisas no Capítulo, e, depois, fora: ‘Ah, mas você viu o superior, viu a superiora?’. Por que não disse no capítulo?”.
As fofocas – reitera, portanto, Bergoglio – “não servem” para nada, a não ser para destruir a harmonia de uma comunidade. “Se você joga a bomba de uma fofoca, isso não é proximidade, isso é fazer a guerra, distanciar-se, provocar distâncias, anarquia na comunidade”, adverte. E deseja que “se neste Ano da Misericórdia, cada um de vocês conseguisse não fazer nunca o terrorismo da fofoca seria um sucesso para a Igreja, um sucesso de santidade grande”.
O terceiro pilar é, então, a esperança. Virtude que – confessa o Santo Padre – “me custa muito”, especialmente quando vejo a queda das vocações. Quando recebo os bispos e pergunto: ‘Quantos seminaristas vocês têm? É, 4 ou 5’. Quando vejo nas vossas comunidades religiosas, masculinas ou femininas, um noviço ou máximo dois e a comunidade envelhece. Quando existem grandes mosteiros levados pra frente por 4-5 freiras idosas…”. Tudo isso, afirma o Pontífice, “me faz sentir uma tentação contra a esperança: Mas, Senhor, o que está acontecendo? Porque as entranhas da vida consagrada se torna tão estéril?”.
Por outro lado, existem congregações que “fazem a experiência da inseminação artificial”, diz o Papa, ou seja, “recebem, recebem” sem se preocupar dos “problemas” que podem surgir depois na alma da pessoa acolhida ou na própria congregação. Pelo contrário, “deve-se receber com seriedade, deve-se discernir se esta é uma verdadeira vocação, e depois ajuda-la a crescer”.
Medicina contra essa tentação da “desesperança” é a oração. Aquela apaixonada e incessante de Ana, a mãe de Samuel, que pedia, entre lágrimas um filho. “Eu vos pergunto: o vosso coração perante a queda das vocações, reza com esta intensidade? A nossa congregação precisa de filhos”, destaca Francisco.
E garante: “O Senhor foi tão generoso, não faltará a sua promessa. Mas nós devemos pedir, tocar a porta do Seu coração”. Também porque há o terrível “perigo” de apegar-se ao dinheiro. “Quando uma Congregação vê que não tem filhos e netos começa a ser menor, se apega ao dinheiro. E vocês sabem que o dinheiro é o esterco do diabo… Quando não podem ter a graça de ter as vocações, pensa-se que o dinheiro salvará a vida, a velhice…”. Assim, não há esperança, afirma o Pontífice…”. “A esperança só está no Senhor, o dinheiro não a dará nunca. Pelo contrário, te coloca mais para baixo”.
Antes de concluir, o Bispo de Roma expressou a própria gratidão pela contribuição oferecida aos consagrados. Especialmente as consagradas: “O que seria a Igreja se não existissem as freiras?”, exclama. Recorda, portanto, os vários “homens e mulheres que deram a vida” em hospitais, colégios, paróquias, bairros. “Quando você vai a um cemitério – diz – e vê que existem tantos missionários mortos e tantas irmãs mortas há 40 anos porque pegaram doenças na África, que as febres daqueles países queimaram as suas vidas, diz: ‘Estes são Santos, são sementes’. Então devemos dizer ao Senhor que desça a esses cemitérios e vejam o que fizeram os nossos antepassados e nos dê mais vocações porque precisamos”.