Montar num jumentinho, filho de uma jumenta

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Montar num jumentinho, filho de uma jumenta

Postado em 11/04/2017

Queridos irmãos e irmãs, estamos dando início a uma semana que nós chamamos de santa e verdadeiramente é. Nós costumamos dizer que este domingo é o domingo de Ramos, mas na verdade é o domingo da Paixão. Paixão aqui não é apenas o sofrimento, a dor, o suplício e a morte horrenda a que Jesus foi condenado. Paixão aqui significa amor levado ao extremo, significa o amor que é dar a vida para os seus, que somos nós, para o resgate da humanidade que estava prostrada na escuridão do pecado. Isto é amor mister, isto é amor que só Deus pode dar dessa forma. Então, domingo da Paixão, que inicia a semana, principalmente estando à quinta-feira à noite, sexta-feira nesse horário, sábado à noite, domingo, quando celebramos a vitória: a Ressurreição.
Pois bem, a liturgia deste Dia da Paixão, também de Ramos, tem duas partes. A primeira que nós participamos ao iniciar a celebração, que a seria a procissão, sendo esta um tanto litúrgica, mas é a procissão da humanidade, do povo que todo dia vai para a rua, para o colégio, para o trabalho... vai para buscar algo para si e para a sua família. Esta é a grande procissão! A primeira [procissão] é feita de humildade. Ele vai montando não em um ginete, isto é, em um cavalo elegante como entravam os imperadores e generais com triunfo nas cidades. Ele vai montar num jumentinho, filho de uma jumenta e que estão juntos! Humildade porque significa que o animalzinho carrega o peso maior que o seu. Os oficiais, os grandes, entravam com bandeiras, com artifícios e com uma pompa extraordinária... bandas também, quem sabe. Ele entra com ornamentação que a natureza deu e que as pessoas humildes tiram dos ramos e colocam aos seus pés, não mais as bandeiras, mas com os mantos no chão. É assim que a pessoa simples vai esperar uma libertação Deste que é aclamado o profeta, Aquele que vai mudar a situação política – esta era a expectativa.
Jerusalém estava repleta de gente, porque era a celebração da Páscoa judaica e judeus do mundo inteiro iam para Jerusalém, porque é lá onde se encontra o templo de Deus. Então, como dito, Jerusalém esteva cheia de gente e principalmente as autoridades estavam preocupadíssimas, porque quando há multidão, pode haver conflitos. E nesta circunstância, este Jesus, que já era percebido pelas autoridades, porque Ele granjeava a estima do povo e poderiam aclamá-lo Rei, como de fato teriam, entra silencioso, humilde para a sua cidade, livre. Ele não pede que ninguém o defenda... Ele não está pedindo algo de diferente. Livremente ele dialogou com o Pai que lhe disse: “É neste ano, é neste fim de semana, é neste sábado!”. E ele vai, livremente, ao encontro, não da morte, mas da vida, porque o seu corpo, a humanidade Dele deve passar pela morte e para a ressurreição.
Há, porém, uma segunda caminhada, uma segunda procissão diferente daquela do povo simples dos ramos, que aclamavam “Hosana! O Filho de Davi!”. Agora é uma procissão de terror, de condenação, de tribunal para tribunal, buscando os juízes. O governador e o imperador buscando uma causa para condená-lo e não a encontravam. E nesse caminhar de Jesus, sozinho, o acompanhavam, então, diante dos tribunais por outras multidões, eles pedem insuflados por uma opinião errônea, por um interesse político, condenam-no, matam-no. Então, na sexta-feira, ele vai iniciar uma procissão carregando o suplício, a cruz em seus ombros para o alto da montanha do Calvário, para dar a sua vida para nós.
Aí talvez tenhamos que repensar algum ponto da nossa vida, da nossa caminhada. Não podemos ficar só em uma primeira procissão, aclamando e trazendo os ramos, porque nós sabemos e queremos que Ele nos liberte, mas de repente poderemos, diante das insinuações mundanas, até gritar para que Ele morra. Precisamos tomar cuidado para não fazer o jogo duplo como a vida faz: Eu aclamá-lo na humildade e no silêncio, com o meu ramo, símbolo da minha pobreza, no meu amor, mas com um grito de guerra, vivendo aquilo que o mundo prega e que nem sempre é do coração de Deus.
Quem é que estava aos pés da cruz? - Mateus, que hoje não contou, mas vai contar na sexta-feira - Quem é que estava aos pés da cruz? Nós costumamos dizer que é Maria, as outras Marias, João, porque ele tinha sido abandonado até pelos mais íntimos - Pedro, Tiago, Tomé... o abandonaram. Judas caiu. Aos pés da cruz estava o mundo inteiro, estava o império romano através de São Longuinho, que com a lança perfurou o lado e vai dizer: “Verdadeiramente é filho de Deus!”. Ali estão os sacerdotes, o templo, os representantes do governo... ali estava o povo, o mundo inteiro. E agora, Ele que se proclamava Rei, está morto. Tudo acabado. E esta segunda procissão foi absolutamente em silêncio. Não respondeu nada aos juízes. O seu silêncio virou juiz dos julgadores e do alto da cruz tudo está consumado. O amor se expressou e a humanidade passou a entrar pelos caminhos Dele. A pergunta é esta: No mundo de hoje, onde nós vivemos, este drama continua? Acabou? Este drama continua.
Qual é o nosso lugar? Qual é a nossa disposição depois da quaresma que vivemos? Nós queremos renovar o compromisso e segui-lo com fidelidade, não só na hora da aclamação triunfal, mas na hora que Ele vai sozinho carregando uma cruz. E isto onde? Na nossa casa, na nossa comunidade, no nosso trabalho... é ali que acontece e se renova o milagre do amor de maneira, às vezes, violenta. O milagre do resgate da vida são todos os dias. Que neste ano, quando formos com todos os brasileiros e brasileiras, cuidemos bem do templo da nossa pátria, das riquezas imensas do nosso país, mas, principalmente, sejamos irmãos e irmãs uns dos outros, independentemente dos biomas, das diferenças deste imenso e belo país que o Senhor nos concedeu.
Renovemos a nossa fé, creiamos que Ele renovou o mundo no silêncio, na humildade do serviço e no amor.