Não tenhais medo!
Postado em 27/01/2017

Irmãos e irmãs, na pessoa do Tenente Paulo e da Sargento que eu cumprimentei no início, cumprimento todos os militares, todos os fiéis devotos de São Sebastião. O evangelho de hoje desta festa memorável para o povo cristão nos apresenta duas palavras oportunas para o momento que nós estamos vivendo. “Não tenhais medo!” Uma das primeiras atitudes que travam o ser humano de desenvolver o seu potencial é o medo. Pensemos que quando nós estamos em algum lugar, em uma casa e ficamos sozinhos, até que essa sensação se aproxime de nós, tudo está tranquilo. Quando você teve a percepção de que uma porta se bateu, o medo vem e é arriscado você não dormir a noite inteira preocupado se é fantasma.
O medo não só inibe o ser humano de desenvolver o seu potencial, como também congela o ser humano, mumifica o ser humano nas suas reais capacidades de fazer o bem e de crer. O evangelho de Mateus – nós estamos no capítulo 10 do evangelho – Jesus, nesse exato momento, já tem consciência de que o cerco está se fechando, de que a palavra que ele estava proferindo e, mais do que uma palavra, Jesus era um homem que falava pouquíssimo. Era um homem que fazia, ele tinha consciência de que o seu fazer, a sua atitude, seu comportamento angustiava o coração de muita gente de maneira negativa, porque Jesus era um homem, o evangelho dizia, que passou entre nós fazendo o bem. Mas muito mais, foi um homem que trouxe para perto de cada um de nós a experiência do Deus, Aba Pai.
Antes de Jesus nós temos os profetas e as profetizas. E aí o texto sagrado diz: “Ninguém jamais viu a Deus”. De fato, Moisés não viu a Deus, ele viu a sarça ardente. Muitos profetas e profetizas escutaram a voz de Deus, sentiram como Elias na brisa suave, a teofania, as manifestações da natureza que os profetas e profetizas interpretavam como sinais de Deus. Com a pessoa de Jesus, todo esse ciclo de manifestação teofânica chega ao fim. Agora, Deus não vai falar por meio da natureza. Deus não vai falar por meio de profetas. Ele, o próprio Deus, vai assumir a nossa natureza para revelar a cada homem e a cada mulher que nós não estamos sozinhos nesta vida. E nas atitudes de Jesus nós temos acesso direto – olha que beleza, gente, acesso direto – ao rosto de Deus!
O evangelho de João, no prólogo, diz: o verbo se fez carne! Veio habitar no meio de nós! E através da encarnação nós contemplamos a graça e a verdade. E ao contemplarmos a graça e a verdade somos chamados filhos adotivos de Deus, filhos e filhas de Deus, porque a todos aqueles que receberam, que acolheram esta graça e esta verdade, tornaram-se filhos e filhas de Deus. Não tenhais medo! Esta palavra é muito precisa dentro da construção dos evangelhos de modo geral, quando Jesus está dialogando com seus amigos e amigas mais próximos, em diversos momentos nós vamos observar Jesus que diz: “Não tenhais medo!” Porque Jesus que conhece o coração humano sabe que um ser humano amedrontado é um ser humano que se acovarda diante de si mesmo, em primeiro lugar, porque ele começa a usar o medo para inibir o seu real potencial. Acaba anulando capacidades doadas por Deus pelo medo!
]“Ah, eu não sou capaz!” “Ah, eu não consigo!” “Ah, eu não posso!” Quantas pessoas são tomadas por esse sentimento que é o medo. E Jesus diz aos seus apóstolos, na liturgia de hoje, por duas vezes nós repetimos: “Não tenhais medo!” É a primeira palavra de Jesus ressuscitado. Quando ele ressuscita e reaparece aos seus amigos, ele diz: “Não tenham medo! A paz esteja com vocês!” Amados irmãos e irmãs, na primeira leitura do livro dos Macabeus, nós escutamos o trecho dos sete irmãos que foram levados diante do rei para renunciarem a fé. “Se vocês renunciarem a fé, eu prometo que vocês vão permanecer vivos!” Eles tinham tudo para confiar nas promessas do rei, ele não ia mentir. No entanto, não é que eles não confiavam no rei. Não é isso que está em jogo! Mas é porque do outro lado da promessa do rei havia a promessa de Deus. E é aí que o coração humano, sustentado pela força da promessa de Deus, pela experiência da fé, começa um a um a dar a sua vida. E é interessante porque a mãe desses jovens vai dizendo a cada um de seus filhos: “Não tenham medo! Não renunciem a fé! Vão em frente!” E motivados pela experiência da fé e da própria mãe que incentiva os filhos a darem a vida, eles, um a um, vão sendo submetidos ao martírio.
A segunda leitura que nós escutamos da Carta aos Hebreus, providencialmente, nos diz: “Lembrai-vos dos primeiros dias quando, apenas iluminados, suportastes longas e dolorosas lutas”. A Carta aos Hebreus está lembrando a cada um que a fé é um caminho de provações. A verdadeira fé não é você ter uma bíblia decorada na cabeça, pois a verdadeira fé é provada! Um jovem pode manifestar muitos comportamentos que nos lembrem que ele tenha fé e têm muitos jovens hoje aguerridos na fé, que nos dão testemunhos grandiosos. Todavia, é na maioridade que nós podemos de alguma forma, provados pela vida, de dizermos se somos ou não mulheres e homens de fé. Porque conforme o tempo passa, aqueles que perseveram, aqueles que sentem muito perto de si diversos tipos de provações e que, mesmo assim, permanecem firmes no senhor, esses e essas são testemunhas na fé, porque um jovem ainda não tem todas as provações. Agora nós, que já estamos na maioridade, que já fomos de alguma forma bombardeados por tantas coisas negativas, nós permanecemos firmes e isso é um testemunho de fé.
Às vezes, somos tomados pelo pessimismo. Hoje, nesta oração matutina ainda da missa, estamos rezando com e para os militares. Sabemos da grande tarefa daqueles que, de alguma forma, cuidam da nossa vida, da convivência pacífica da nossa sociedade, sobretudo os nossos policiais da Polícia Militar. Sabemos que por trás de cada soldado, policial, existe uma pai, uma mãe, esposo, esposa, uma família. Um trabalho que, todos os dias, eles que são responsáveis pela segurança, são submetidos a um estado de insegurança. Por isso, é mais do que justo na festa de hoje nós fazermos uma prece e pedirmos a Deus, porque o coração de uma mãe, de um pai que tem seu filho militar, pode ser orgulhoso, mas é um coração que todo dia reza pedindo a Deus pela segurança de seus filhos. Como é importante, também, a nossa gratidão.
Às vezes, por um comportamento equivocado de uma pessoa, quer se julgar uma corporação e não é legítimo isso, porque o contrário também vale, pelo bom comportamento de um, poderíamos julgar toda uma corporação. Sabemos que existem muitos militares que exercem o seu serviço com muito profissionalismo, com vocação, pois também é uma vocação que mesmo, às vezes, sendo incompreendido por tantos, procuram exercer a sua função e são homens e mulheres movidos pela fé. Veja como, para nós é um testemunho ver um policial que reza, que tem a sua fé. O policial é gente como qualquer outra pessoa e tantas vezes nós cobramos muito e às vezes há pouca gratidão, pouco reconhecimento, pouca honraria àqueles que colocam a sua vida à disposição para salvaguardar a ordem e o direito de cada um.
Então, nesta missa, nós agradecemos a Deus neste momento em que sobretudo a sociedade – não é só Manaus, não vamos julgar as coisas com um olhar muito particularizado, é um país inteiro – que passa por esses momentos de intranquilidade, é generalizada a coisa. Os focos, claro que aparecem, mas não sejamos cegos apenas para achar que é só aquilo, que em Rio Grande do Norte, em Roraima, que acontecem essas coisas, mas em vários lugares esses focos de violência estão presentes. É importante que cada um de nós e que seja um momento oportuno para pensarmos que a solução para tudo isso não passa, simplesmente, por construção de cadeias públicas. A violência não é resolvida assim, mas é resolvida com oportunidades, com políticas públicas, sociais, humanizar esses lugares. Humanizar, em primeiro lugar, o trabalho dos nossos policiais que tantas vezes trabalham fazendo a sua vocação, o serviço à vida. Mas quais são as condições que são oferecidas? Humanizar a cabeça de todos nós da sociedade que tantas vezes somos motivados por um sentimento de vingança.
É contraditório nós termos medo da violência, mas cultivarmos no nosso coração um sentimento de vingança. A humanização: Não tenhais medo! Peçamos aquilo que esses três jovens no trecho de hoje estão testemunhando para nós: a fé. Eu não vou pagar a violência com a violência, eu vou confiar. A justiça começa quando cada um de nós faz bem o que precisa ser feito, cumpre os procedimentos que são acordados socialmente, quando cada um doa o melhor de si para o outro. A nossa gratidão, então, aos militares, mas de modo particular reitero à Polícia Militar do nosso estado, pedindo ao Senhor que possa abençoar, acalentar o coração de cada pai, de cada mãe, de cada esposo, de cada esposa e de cada filho, pedindo ao Senhor que abençoe e dê vida longa também aos nossos militares.
Seja louvado o Nosso Senhor Jesus Cristo!