Quando nós somos roubados
Postado em 16/01/2017

Meus irmãos e minhas irmãs, nós estamos no sétimo dia do nosso dezenário. A primeira leitura da Carta aos Hebreus que nós escutamos hoje é um hino ao sacerdócio. Porém, um sacerdócio de Cristo, aquele que é a medida para o ministério ordenado da Igreja, o sacerdócio ministerial, mas também o sacerdócio do nosso batismo. Só é possível entender esses dois sacerdócios à luz do ministério exercido pelo sumo sacerdote que Cristo e que a Carta aos Hebreus procura exaltar na figura deste [sumo sacerdote].
Desde as características de sumo sacerdote que a primeira leitura da Carta aos Hebreus atenta, diz que ele entra no Santuário, é tirado do meio dos homens e instituído em favor dos homens nas coisas que se referem a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. Saber ter compaixão! A Carta aos Hebreus vai elencando uma série de características desse sacerdote, que talvez nós, como temos essa medida de um sacerdócio ministerial da Igreja, também podemos em algum momento nos perguntarmos: Onde nós encontramos esse sacerdote? E aí nós percebemos que era o sacerdócio supremo de Cristo, ele é a medida e, portanto, é através do exercício da vida de Jesus que nós vamos encontrando as características que vão se realizando plenamente de um sacerdócio que se colocou a serviço da vida e das pessoas.
O evangelho de Marcos, hoje, quando nos traz esse dilema dos discípulos de João Batista que olham para os discípulos de Jesus e fazem uma indagação: “Por que os discípulos de João e os teus discípulos não fazem isso? Por que você não cumpre a lei? Por que vocês estão transgredindo uma norma?” Jesus então vai atentar para um elemento: “Os convidados de um casamento poderiam, por acaso, fazer jejum enquanto o noivo está com eles?” É uma pergunta que Jesus está fazendo! Porque Jesus está querendo estimular tanto os fariseus como os discípulos de João Batista que, na pessoa Dele e por meio da sua ação no mundo, nós estamos tendo acesso ao rosto de Deus. Este rosto que até então era desconhecido, mas não porque as pessoas não tinham acesso ao aspecto físico de Deus, não é só por isso. As pessoas conheciam os oráculos, conheciam a vontade de Deus através dos profetas e das profetizas, mas através da pessoa de Jesus nós temos acesso à palavra proferida, como diz João, à palavra feito carne, ou seja, o próprio Deus que age na pessoa de Jesus.
E ainda, Jesus nos diz: “Eu estou aqui, então é o tempo em que vocês não devem jejuar”. É o tempo em que nós estamos nos alimentando desse pão do céu para termos força, para que no momento oportuno sim, os discípulos e discípulas de Jesus possam testemunhar, alimentados pelo Pão Vivo descido do céu. O tema do nosso dezenário deste ano – A plenitude da Lei é o Amor – nos parece que é contraditório em um dado momento, quando nós olhamos a experiência dos mandamentos, do decálogo, porque anterior à normativa, nós estamos uma experiência muito mais profunda de um Deus que viu, ouviu e venceu. Um Deus que sente as dores do seu povo, que escuta o clamor. E o livro do Êxodo diz isso: “Deus viu, ouviu e venceu”. E esta experiência alimenta a decisão de Moisés de, em nome de Deus, seguir esse ministério de libertar, ou melhor, de conduzir, pois quem liberta é o próprio Senhor. Moisés é aquele que vai conduzindo o povo, porém a grande promessa é de uma terra onde corre leite e mel. A grande promessa de Deus é que seu povo estaria saindo da terra da escravidão para adentrar numa terra onde é o próprio Deus que vai conduzir a vida do seu povo.
“Eu sou o vosso Deus e vocês serão o meu povo”. Daí se inicia a experiência do deserto e é no mesmo momento desta experiência que veio o decálogo. E parece que é contraditório: um povo que está caminhando para a experiência da liberdade plena, para uma terra onde Deus que vai conduzir, então, por que a lei? Qual a necessidade de mandamentos, de leis? Por isso que num primeiro olhar o decálogo pode parecer um elemento estranho para a experiência da liberdade e da libertação, mas não é. Porque é justamente baseado na experiência da escravidão que Deus promete ao seu povo que na terra prometida, aquela experiência da escravidão, da morte, da injustiça não pode ser repetida, nem vigorar na terra de Deus.
No lugar sonhado por Deus, a cada homem e a cada mulher não pode haver escravidão. Portanto, o decálogo entra como uma prerrogativa, uma ajuda de Deus para que seus filhos e filhas não repitam aquilo que eles haviam experimentado na terra estrangeira, no Egito. E nesse caminho, o decálogo não é uma camisa de força, é uma experiência profunda, é um selo de um amor em que Deus e a humanidade encontram-se através de leis, de normas que não estão escritas apenas em tábuas de pedra, mas leis que estão prescritas no coração de cada ser humano. E o decálogo então começa dizendo: “O Senhor, teu Deus, teu único Deus, amarás sobre todas as coisas; Não tomarás o seu Santo nome em vão; Guardarás domingos e festas”. Esses mandamentos reforçam essa relação de amor iniciada, não a partir da experiência de Moisés e das tábuas, mas é a extensão de uma lei de amor que está escrita na origem da vida.
Aquela experiência do Éden que depois se reconfigura na Páscoa, é nesta lei que está inscrita, no coração do homem. E Deus então vai através dos três primeiros mandamentos reforçar esta relação umbilical de um Deus que ama e de um coração humano que escolheu Javé como seu único Deus: “Eu serei o vosso Deus e vocês serão o meu povo.” É este pacto, esta aliança de amor que está salvaguardada nos primeiros mandamentos. Porém não bastava somente amar a Deus. É preciso também que a relação humana, de pessoa para pessoa seja também sustentada por este amor. Nós ainda estamos no sétimo mandamento do nosso dezenário: Não furtarás! Ora, nós poderíamos, então, nos perguntar: Quem já foi roubado uma única vez levante sua mão. Pode levantar sua mão! Seja em casa ou na rua, pode levantar sua mão.
Quando nós somos roubados, a primeira coisa que vem ao osso coração é um sentimento de insegurança. Não é que você está apegado ao bem que porventura lhe foi roubado. Não é o valor do bem material, mas é porque, na consciência do ser humano, aquilo que ele adquiriu com o seu sacrifício, com as suas economias, com o seu trabalho, somente ele pode se desfazer disso. E quando, de repente, essa prerrogativa é invertida –não foi você que se desfez, foi alguém que, num âmbito de violência, usurpou de um bem que era seu e que foi fruto de um sacrifício seu – aí vem um sentimento de revolta, de insegurança e, neste exato momento, o sentimento pior que pode brotar no coração humano é a chamada vingança, porque o furto pode gerar isso no coração humano.
Agora é importante se atentar que quando nós falamos em não furtar, nós não estamos falando apenas de um indivíduo que cometeu uma infração, de um pacto social ou de uma invasão jurídica, normativa. Não se trata apenas disso! Nós estamos falando também da atitude, do compromisso que cada um de nós temos diante da justiça. Isso é importante! Indignação, muitos podem carregar, por umas tantas informações e notícias que chegam diariamente aos nossos ouvidos, assaltos de diversas ordens, desde o bem público, como nós acompanhamos pelos noticiários, daquilo que deveria ser do bem comum, daqueles que deveriam zelar pelo bem comum, até aqueles que assaltam o bem público ao delinquente, aquele pobre que por uma situação ou uma série de situações pode ser conduzido ao ato infracional. O furto é algo que precisa ser enxergado não apenas como uma violação de um código moral. A Sagrada Escritura diz, no livro de Amós, um tipo de furto que às vezes nós não estamos muito atentos: “Adulterar a balança, adulterar o preço, quando o pobre ainda está dormindo”. Diz o livro de Amós que Deus se ira contra aqueles que fazem esse tipo de atitude.
Há outros tantos tipos de furtos que nós, cotidianamente, estamos inseridos e, às vezes, nós nem percebemos. Por exemplo: um médico que solicita um exame que às vezes nem é preciso, ele está agindo de má-fé. Um funcionário que desvia uma caneta do seu local de trabalho, está agindo de má-fé. Não existe um maior ou um menor roubo. É furto de qualquer forma e está indo contra um mandamento. Portanto, a importância de nós refletirmos sobre o não furtar é percebermos que, em primeiro lugar, como é importante o aspecto da justiça dentro do coração de cada um de nós. A Sagrada Escritura atribui a José o modo de um homem justo, de uma justiça que não vem apenas de coisas externas, de medo, de coesão, da força ou pela seara jurídica. José não estava com medo disso, ele era um homem que cultivava no seu coração o amor a Deus, cultivava aquele pacto de amor iniciado lá na criação, formatado na experiência da Páscoa dos judeus. José cultivava isso no seu coração, por isso era um homem que temia a Deus e procurava constantemente ser um homem justo.
Como é importante isso nos dias de hoje! E nós, como já passamos dos 40 anos, temos histórias para contar de uma época em que, se chegasse em casa com alguma coisa que não era sua, seus pais ainda eram da época em que era feita a varredura da bolsa ou da mochila e, se alguma coisa que você trouxesse não fizesse parte daquilo que papai e mamãe compraram, podia ter a certeza que você ia passar pela Vara da Justiça da Infância e da Adolescência, ia ser submetido e ia ter que devolver, porque aquilo não era seu. E daquele jeito nossos pais estavam nos ensinando a não furtar, a não querer nada dos outros. Minha mãe, de maneira simples, dizia: “Nós somos pobres, mas não queremos nada que não seja nosso, que não tenha sido fruto do esforço do nosso trabalho”.
Amados irmãos e irmãs, será que essa cartilha desapareceu? Será que não se ensina mais isso? Não adianta ficarmos indignados com os grandes assaltos que nós vemos pelos telejornais, se de repente essas coisas que se aprendem em casa, hoje não está mais sendo ensinado! Homens e mulheres justos se formavam no seio de uma família, não se formam apenas em um banco de uma escola, de uma universidade. Não são os livros que ensinam como uma pessoa deve ser justa e honesta! Quantas pessoas vieram de famílias muito pobres, de pais, inclusive, analfabetos, aprenderam em casa o que é ser justo, honesto, o que é ter integridade, o que é lutar pela vida.
O texto proposto para o mandamento de hoje entra em um assunto muito delicado para nós: a posição da Igreja em relação a tudo isso. Quanto o ser humano está valendo? Nós estamos vendo e acompanhando que o crime está virando motivo para alguns enriquecerem. E não é o assassino que está lá no final da cadeia da violência, são outros! Para cada bandido preso é dinheiro que eles estão ganhando. A violência está virando comércio! E não são os pobres, são aqueles que deveriam gerir o bem público para benefício da comunidade. A saúde está virando motivo para alguém ganhar dinheiro e assim é em vários serviços públicos. O ser humano está virando mercadoria! Como cultivar estes mandamentos de Deus no nosso coração, no coração da nova geração, se nós estamos invertendo os papéis? O ser humano está virando uma cifra e aí está o afastamento, o distanciamento e até mesmo a fé se não tivermos cuidado vai também para esta linha, para esta direção.
Cultivemos! A palavra exata é esta: Cultivar, como alguém que vai cultivar uma planta. É preciso ter cuidado, atenção, colocar tudo numa medida certa. O povo eleito de Deus tem direito a uma terra que corre leite e mel. Não para alguns, porque a promessa de Deus foi para aqueles que sofriam, os anawin, os pequeninos e pequeninas de Deus. São esses que criam precedentes e para esses que Deus criou, desejou uma terra que corre leite e mel. Não furtar é uma das prerrogativas que nós devemos cultivar no nosso coração para que esta terra prometida e sonhada por Deus se realize perto de nós. Que nós sejamos aqueles e aquelas que, como Moisés, lembram ao povo, a esta geração, que a lei de Deus está inscrita em nosso coração.
Avancemos para a terra prometida! Talvez ainda não colocamos os pés, pois muitas coisas amedrontam o nosso povo e geram insegurança, mas lembremos: O Deus de nossos pais, o sumo sacerdote que entrou de maneira definitiva no templo, já ofereceu o seu sacrifício para reparar de maneira definitiva aquilo que transgrediu, que impossibilitou o ser humano de ter acesso a uma vida plena. Esse sumo sacerdote nos garante que Ele veio para que todos tivessem vida e a tivessem em abundância. Que o Senhor nos conduza à terra prometida que ele também espera que cada um de nós o encontre.
Seja louvado o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo!