Se eu errar, o senhor olha para mim

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Se eu errar, o senhor olha para mim

Postado em 18/01/2017

Estava vindo para celebrar convosco esta Santa Eucaristia com muitas ideias na cabeça e muitas informações bíblicas sobre o nono mandamento, mas caminhava preocupado porque não vinha nenhuma inspiração. Eu tinha passado o dia assim: “Meu Deus, eu vou para a Igreja de São Sebastião sem nenhuma inspiração! Ajuda-me! Dai-me uma inspiração!” Entrei na Igreja, com a mesma inquietação e foi uma criança lá na sacristia, ela se aproxima de mim e diz assim: “Eu vou ler depois do evangelho esse texto aqui.” Eu perguntei: “Você vai ler?” E a criança disse: “Vou ler!” Daí eu perguntei novamente: “Você vai ler?” E ela disse: “Eu vou ler!”. De repente uma frase, com toda a ternura que guarda a inocência da criança, disse a seguinte frase: “Se eu errar, o senhor olha para mim”.
A frase do início caiu como uma luva no meu coração. Era a inspiração que eu queria! Os mandamentos são o olhar de Deus sobre nós. Cada vez que erramos, que pecamos, Deus olha para nós! E eu achei mais interessante ainda a contradição, eu não sei se foi de propósito, mas achei muito forte a contradição, a força das palavras do texto e a inocência da criança. Recordei-me de uma vez andando pelos interiores, na diocese de Coari, eu ouvindo confissões antes da primeira comunhão, me surpreendi com uma criança dizendo assim: “Padre, eu pequei contra o sexto mandamento!” Eu olhei para a criança espantado e procurando esconder o espanto, perguntei dele: “E o que está escrito no sexto mandamento?” A criança respondeu: “Não pecar contra a castidade.” Pronto, quando a criança disse isso, dei logo a absolvição. Não ousei fazer ao menos uma pergunta, porque eu fiquei constrangido de tirar da criança qualquer inocência, porque não sei se aquela criança estava entendendo o que aquelas palavras diziam e qual é a razão do comportamento dela. Também nem sei se eu estava me entendendo, porque passei um tempo refletindo algumas perguntas: O que significava pecar contra o sexto mandamento que era pecar contra a castidade? E me parece que se relaciona diretamente com o nono mandamento, não desejar a mulher do próximo. Eu acredito que haja uma fusão entre o sexto e o nono mandamento da lei de Deus.
Meus irmãos e irmãs, ainda retomando à ternura das palavras do Vinícius, Jesus Cristo veio nos trazer de volta toda a ternura que havia se perdido, toda ternura do amor de Deus que tinha se enrijecido ou ficado escondido através dos desdobramentos das normas criadas pela tradição rabínica em que desdobraram os mandamentos em 613 normas. E mais de 300 dessas normas estavam no imperativo negativo – Não! Não! Não! E não! Era como se cada dia um milhão fosse repetido Não! Não! Não! E não! E este não nunca ouviremos da boca de Jesus! Ele nunca disse não!
Jesus toca o nosso coração com a misericórdia do Pai. Lembrávamos durante todo o Ano Santo da Misericórdia: Jesus é o rosto da misericórdia. Ele toca o coração com a misericórdia do Pai, não para confrontar a lei, muito pelo contrário! Por isso nós vamos entender os dez mandamentos à luz do sermão da montanha. Jesus chama a atenção e toda a base dos dez mandamentos tem como fundamento o amor de Deus. E os dois mandamentos, o sexto e o nono, apesar de também estarem no imperativo negativo, a proposta destes é preservar a inocência e o amor na família. O sexto mandamento nos convida a preservar a inocência, a cuidar da inocência, não para sermos infantis, mas para resgatar aquela bem-aventurança que Jesus a repetiu: “Bem-aventurados os puros de coração”. E inocência tem a ver com isso! Voltar o coração à pureza, isto é, olhar a vida com os olhos de Deus, com amor e ternura.
O sexto mandamento nos convida a preservar a inocência. O nono mandamento nos convida a preservar o amor de Deus em família. O amor de Deus dentro da família deve ser resguardado todos os dias pelos seus membros, na relação marido e mulher. Agora repare que contexto em que este mandamento foi escrito... é um machismo, sim. Os estudos já nos deram essas informações, é o machismo e, por isso, a mulher é apresentada como propriedade do marido. “Não desejar mulher do próximo!” Se o mandamento fosse escrito dentro do nosso contexto, com certeza ele seria diferente. E muito bem lembrou Frei Sebastião, também na sacristia, quando partilhava com ele a inspiração do início, não desejar a mulher do próximo e o marido da próxima! Porque é claro, hoje nós já sabemos que no decorrer da evolução dos conhecimentos e das relações de gênero, nós nos pertencemos um ao outro, então o imperativo do mandamento continua válido, apesar de negativo. Não com a força da lei, mas com a ternura do amor. Porque somos um do outro e ninguém é objeto de ninguém. E porque somos uns dos outros que ninguém deve ser escravizado, nem explorado, porque nós somos uns dos outros no amor de Deus, porque Ele é que é o nosso Senhor.
O mandamento continua válido hoje mais do que nunca, principalmente numa sociedade que apesar de tantas informações, tantos conhecimentos e do avanço tecnológico da comunicação, ainda estamos sendo muito explorados. Não é pecado aquela evolução da sexualidade na década de 60, nos trouxe a liberdade que só a castidade e o amor pode nos proporcionar. Meus irmãos e irmãs, nesta noite nós somos convidados, pelo nosso dezenário, a perceber que em cada pessoa, homem e mulher, a imagem e semelhança de Deus está estampada em nosso rosto.
Por isso, não desejar, ou seja, não fazer do outro o objeto do meu desejo, do meu capricho, mas, olhando para o outro, perceber a imagem e a semelhança de Deus. Essa é a proposta do evangelho quando Jesus disse, lembrando a instituição familiar: “Aquilo que Deus uniu, ninguém separa!”